TÚNEIS DE DESINFECÇÃO E COVID-19

Cada vez mais divulgados e adotados por prefeituras, comércios e feiras no Brasil, os túneis de desinfecção são estruturas por onde a pessoa passa e recebe jatos de ar comprimido misturado a produtos químicos, para fazer sua desinfecção, descontaminação e higienização.

Os fabricantes destes produtos, que variam de produtos ditos naturais e químicos, garantem que eles são eficientes contra o novo coronavírus SARS-CoV-2, causador da covid-19, já especialistas e a própria vigilância sanitária do Brasil (ANVISA), discordam dessa afirmativa.


MAS O QUE DE FATO SABEMOS ATÉ AGORA?

Até o atual momento, junho de 2020, a Anvisa se mostrou preocupada com a divulgação sobre a utilização de estruturas (câmaras, cabines e túneis) para a desinfecção de pessoas com o objetivo de prevenir infecções pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2), e divulgou Nota Técnica 51/2020, com esclarecimentos e alertas sobre o assunto. De acordo com o documento, não existe, no momento, nenhuma evidência científica sobre a eficácia e a segurança desse tipo de procedimento.

Outro problema relacionado à divulgação e que a Anvisa rebate é que a duração de 20 a 30 segundos para o procedimento não seria suficiente para garantir o processo de desinfecção, mesmo usando hipoclorito de sódio (água sanitária) ou ozônio liquido, por exemplo.


MAS POR QUE A ANVISA DECLAROU ESSA NOTA TÉCNICA?

Segundo a Anvisa, sua nota técnica se baseia nas conclusões de uma revisão de documentos, estudos e artigos internacionais realizada pela Agência, que não encontrou recomendações ou exemplos sobre a possível eficácia de desinfecção de pessoas com uso de câmaras, cabines e túneis.

A revisão incluiu informações de fontes como a Organização Mundial da Saúde (World Health Organization –OMS), a Agência de Medicamentos e Alimentos dos Estados Unidos (Food and Drug Administration –FDA), o Centro de Controle e Prevenção de Doenças/EUA (Centers for Disease Control and Prevention –CDC) e a Agência Europeia de Substâncias Químicas (European Chemicals Agency – ECHA).

Ainda de acordo com a nota técnica da Anvisa, produtos químicos usados nos saneantes aprovados são destinados à limpeza e higienização de superfícies como móveis, bancadas, pisos, objetos e paredes. Tais produtos, ao entrarem em contato com a pele ou aplicados diretamente sobre ela, podem causar danos e efeitos adversos.


“É importante ter na mente da população que o vírus em uma pessoa contaminada com Covid-19 se encontra nas vias respiratórias (nariz, boca, garganta, pulmões,etc) e os produtos químicos não podem e NÃO DEVEM entrar em contato com esses locais, sendo assim, incapazes de realmente garantir a descontaminação e desinfecção de uma pessoa.”

Vinícius Lôbo, Farmacêutico Virologista


Segundo o Conselho Federal de Química – CFQ , eles também afirmam que não existe evidência de que o procedimento funciona, desaconselhando compra e uso destas câmaras para tal finalidade dentro da atual pandemia.

Outro grupo que se manifestou sobre o tema foi a Sociedade Brasileira de Infectologia – SBI, que além de contestarem a eficácia do processo, alertam para o risco de exposição da pele a substâncias químicas.

“Essas substâncias podem provocar dermatites graves, levar a fenômenos alérgicos e promover sintomas respiratórios que podem ser graves. Em segundo lugar, a efetividade para desinfecção é baixa, o objetivo é que se elimine vírus das superfícies, mas a eliminação das superfícies corporais depende de uma exposição homogênea, o que não é garantido pelo túnel”, afirma o médico infectologista Crispim Cerutti.

Temos também comunicado do CREMESP: “Curas milagrosas não existem, diz o Conselho Regional de Medicina de SP. Anúncio de que aplicação de ozônio é eficaz contra o novo coronavírus deve ser proibido pela Justiça, por induzir as pessoas a uma falta sensação de proteção e relaxamento de distanciamento social e higienização pessoal em locais públicos”.

A Associação Brasileira de Ozonioterapia – ABOZ também informa que não garante que túneis e câmaras de desinfecção possa descontaminar pessoas doentes de Covid-19 em tão pouco tempo e que seria difícil para empresários conseguirem estruturas adequadas para esse procedimento de forma eficaz.

Com base nessas declarações, é mais prudente que as pessoas parem de comprar e usar estas estruturas que podem  não só não proteger as pessoas, bem como colocar suas vidas em risco, devido a alergias e efeitos adversos.

 


REFERÊNCIAS:

– Agência de Vigilância Sanitárias – ANVISA: Esclarecimentos sobre desinfecção de pessoas em túneis, cabines e câmaras, disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/noticias/-/asset_publisher/FXrpx9qY7FbU/content/covid-19-esclarecimentos-sobre-desinfeccao-de-pessoas/219201

– Nota Técnica Agência de Vigilância Sanitária: NOTA TÉCNICA Nº 51/2020/SEI/COSAN/GHCOS/DIRE3/ANVISA – Disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/documents/219201/4340788/Nota+t%C3%A9cnica+51+equipamentos+de+desinfec%C3%A7%C3%A3o/83744f1e-e422-4a02-acee-8add5a4ad2e5

 

– Conselho Federal de Química – CFQ – Comentário sobre Túneis de desinfecção, disponível em: http://cfq.org.br/

– Matéria jornal Folha Vitória: Especialistas avaliam eficácia de túneis de desinfecção e fazem alerta. Disponível em: https://www.folhavitoria.com.br/geral/noticia/05/2020/especialistas-avaliam-eficacia-de-tuneis-de-desinfeccao-e-fazem-alerta

– Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo – CREMESP. Comentário sobre Túneis de desinfecção, disponível em: http://www.cremesp.org.br/

– Associação Brasileira de Ozonioterapia – ABOZ, Comentário sobre Túneis de desinfecção, disponível em: https://www.aboz.org.br/

 

 

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