INALAÇÃO DE FUMAÇA: RISCOS E CONSEQUÊNCIAS

A composição química da fumaça depende do material queimado, mas sempre contém monóxido de carbono, dióxido de nitrogênio e dióxido de enxofre, dentre outras substâncias geralmente tóxicas. 

Incêndios e queimaduras são a terceira maior causa de acidentes fatais domiciliares, respondendo por cerca de 2.600 mortes e 13.000 feridos conforme estatísticas anuais norte-americanas.

Muitas mortes foram devidas à inalação de fumaça, sendo 80% atribuível à intoxicação por monóxido de carbono. Entre os pacientes com lesões cutâneas e inalatórias, estima-se que 77% das mortes estão relacionadas a complicações pulmonares.

A propagação da fumaça se dá a uma velocidade muito grande, maior às vezes que a capacidade de fuga das pessoas. Ao impedir a visibilidade, ela ocasiona medo e desorientação, dificultando ainda mais a retirada de pessoas de um ambiente enfumaçado.

A inalação continuada de pequenas quantidades de fumaça, como acontece nos fumantes, por exemplo, leva a um processo inflamatório crônico dos alvéolos pulmonares e mau funcionamento, dilatação e destruição dos mesmos.

A inalação massiva, por sua vez, pode causar danos sérios imediatos e até letais ao aparelho respiratório. Mesmo dias depois da inalação as pessoas podem desenvolver sintomas e doenças respiratórias graves (falta de ar, chiado no peito, febre, tontura ou enjoo, bronquite, pneumonia química) ou ficar com sequelas permanentes.

Como a fumaça geralmente está aquecida (às vezes a temperaturas muito altas), a combinação do calor com a fumaça causa danos ainda maiores ao sistema respiratório. Nos alvéolos deteriorados, as trocas gasosas que ocorrem normalmente (absorção de oxigênio, eliminação de gás carbônico) não podem acontecer, parcial ou totalmente. Sem oxigenação, os tecidos morrem em 5 a 7 minutos e o tecido nervoso ainda mais rapidamente.


INTOXICAÇÃO POR MONÓXIDO DE CARBONO

A intoxicação por monóxido de carbono (CO) deve ser presumida em todos os pacientes após inalação de fumaça, até que seja excluída por um nível de carboxi-hemoglobina normal. Vale lembrar que a oximetria de pulso NÃO descarta a intoxicação, portanto, deve ser realizada uma gasometria arterial.

Os sintomas de intoxicação incluem cefaleia, náuseas, mal estar, alterações cognitivas, dispneia, angina, convulsões, coma, arritmias cardíacas, insuficiência cardíaca ou lábios brilhantes em tom de “cereja”.

Quanto aos níveis de carboxi-hemoglobina, indivíduos não fumantes podem apresentar até 3%, enquanto fumantes podem ter níveis de 10 a 15%. Níveis acima desses valores são consistentes com intoxicação por CO.


INTOXICAÇÃO POR CIANETO

O cianeto de hidrogênio é um subproduto da combustão de certos compostos, como poliuretano, acrilonitrilo, nylon, lã e algodão. Essa molécula inibe o metabolismo aeróbico e pode rapidamente resultar em morte. A intoxicação por cianeto é quase impossível de se confirmar durante as horas iniciais após a inalação de fumaça, porque os níveis de cianeto não são mensuráveis na fase inicial da intoxicação.

O quadro clínico não é específico e envolve coma, apneia central, disfunção cardíaca, acidose lática grave (acidose com ânion gap aumentado), alta saturação venosa mista de oxigênio (SvO2) e baixa diferença no conteúdo arteriovenosa de O2.

Por estas razões, deve-se ter um baixo limiar para tratar empiricamente uma intoxicação por cianeto. Além de administração de oxigênio a 100%, o tratamento inclui descontaminação e uso de antídotos como tiossulfato de sódio e hidroxicobalamina.


CONSIDERAÇÕES SOBRE O TRATAMENTO

Se houver lesão grave da árvore traqueobrônquica, o epitélio necrótico começará a descamar em 3 a 4 dias após a exposição. O aumento das secreções nesta situação coloca o paciente em risco elevado de obstrução das vias respiratórias, atelectasia e desenvolvimento de broncopneumonia. O risco de pneumonia também é aumentado pela alteração da função dos macrófagos alveolares, leucócitos polimorfonucleares e dos mecanismos de depuração mucociliar. Nesta fase, é importante o papel da fisioterapia respiratória. As secreções devem diminuir dentro de 7 a 10 dias, se a infecção pulmonar não se desenvolver.

Síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) também pode ocorrer vários dias após a exposição, e sua apresentação, diagnóstico e tratamento são os mesmos que para SDRA decorrente de outras etiologias.

A maioria dos pacientes não sofre danos de longo prazo após a inalação de fumaça. Não ocorrem mudanças na espirometria, hiper-responsividade das vias aéreas ou em ergoespirometria. Sequelas no longo prazo são raras e incluem estenose traqueal, bronquiectasia, fibrose intersticial, síndrome de disfunção reativa das vias aéreas e bronquiolite obliterante, embora a maioria dos casos pareça estar relacionada com o desenvolvimento de bronquite química grave ou pneumonia nosocomial durante a fase aguda de hospitalização.

 



REFERÊNCIAS:

– ABCMed [As Consequências da Inalação de Fumaça]. Disponível em: https://www.abc.med.br/p/336079/as+consequencias+da+inalacao+de+fumaca.htm

– MedicinaNET [Atendimento da Intoxicação por fumaça]. Disponível em: http://www.medicinanet.com.br/conteudos/revisoes/5285/atendimento_na_intoxicacao_por_fumaca.htm

 

 

 

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