ESCLEROSE MÚLTIPLA

O termo “esclerose múltipla” se refere a várias áreas de cicatrização (esclerose) resultantes da destruição dos tecidos que envolvem os nervos (bainha da mielina). Essa destruição denomina-se desmielinização. Às vezes, as fibras nervosas que enviam mensagens (axônio) também são afetadas. Com o tempo, o cérebro pode encolher, pois os axônios são destruídos.

Nos Estados Unidos, aproximadamente 400 mil pessoas, principalmente adultos jovens, têm esclerose múltipla. Cerca de 10.000 novos casos são diagnosticados a cada ano. Mundialmente, cerca de 2,5 milhões de pessoas apresentam esclerose múltipla. No Brasil, a Associeção Brasileira de Esclerose Multipla – ABEM estima que atualmente 35 mil brasileiros tenham Esclerose Múltipla

Mais comumente, a esclerose múltipla começa entre os 20 e 40 anos de idade, mas pode começar a qualquer momento entre os 15 e 60 anos de idade. De certa forma, ela é mais comum em mulheres. A esclerose múltipla é rara em crianças.

A maioria tem um período de saúde relativamente boa (remissões), alternando com períodos de piora nos sintomas (surtos ou recaídas). As recaídas podem ser moderadas ou debilitantes. A recuperação durante a remissão é boa, porém, incompleta. Sendo assim, a doença piora lentamente com o tempo.


CAUSAS

A causa é desconhecida, mas a explicação provável é que as pessoas são expostas no início da vida a um vírus (possivelmente um herpes vírus ou retrovírus) ou alguma substância desconhecida que, de alguma maneira, aciona o sistema imunológico para atacar os tecidos do corpo (reação autoimune). A reação autoimune causa inflamação, que provoca lesão na bainha de mielina e nas fibras nervosas subjacentes.

Os genes parecem desempenhar um determinado papel na esclerose múltipla. Por exemplo, ter um progenitor ou um(a) irmão/irmã com esclerose múltipla aumenta muito o risco de adquirir a doença. A esclerose múltipla também é mais provável de se desenvolver em pessoas com certos marcadores genéticos na superfície das células, chamados antígenos de leucócitos humanos. Normalmente, esses marcadores ajudam o corpo a distinguir o próprio do não próprio e, assim, saber quais substâncias atacar.

Os fatores ambientais também desempenham um papel na esclerose múltipla. O local onde as pessoas passam os primeiros 15 anos da sua vida tem influência no risco de desenvolvimento de esclerose múltipla. Isso ocorre conforme o seguinte:

  • Em uma em cada 2.000 pessoas que crescem em um clima temperado
  • Em apenas uma em cada 10.000 pessoas que crescem em um clima tropical
  • Muito menos frequente em pessoas que crescem perto da linha do Equador

Essas diferenças podem estar relacionadas aos níveis de vitamina D. Quando a pele fica exposta à luz solar, o corpo forma a vitamina D. Sendo assim, as pessoas que crescem em climas temperados podem ter um nível menor de vitamina D. Pessoas com um nível baixo de vitamina D têm mais probabilidade de desenvolver esclerose múltipla. Além disso, em pessoas que apresentam a doença e baixos níveis de vitamina D, os sintomas parecem ocorrer mais frequentemente e são mais graves. Mas não se sabe como a vitamina D pode proteger contra a doença.

Onde as pessoas vivem por mais tempo, independentemente do clima, não muda suas chances de desenvolver esclerose múltipla.

O tabagismo também parece aumentar as chances de desenvolver a doença. A razão é desconhecida.

 


SINTOMAS

Os sintomas variam consideravelmente conforme a pessoa e o momento, dependendo das fibras nervosas desmielinizadas.

Padrões de esclerose múltipla

A esclerose múltipla pode avançar e retroceder de forma imprevisível. No entanto, existem vários padrões típicos de sintomas:

  • Padrão de recaída-remissão:As recaídas (quando os sintomas pioram) alternam com as remissões (quando os sintomas melhoram ou não pioram). As remissões podem durar meses ou anos. As recaídas surgem espontaneamente ou são desencadeadas por uma infecção como a gripe.
  • Padrão progressivo primário:A doença avança gradualmente sem remissões nem recaídas óbvias, ainda que possam existir intervalos temporários, nos quais a doença permanece estabilizada.
  • Padrão progressivo secundário:Esse padrão começa com recaídas que alternam com remissões (o padrão recaída-remissão), seguidas de um avanço gradual da doença.
  • Padrão recidivante progressivo:A doença progride gradualmente, mas essa progressão é interrompida por recaídas súbitas. Esse padrão é raro.

Em média, as pessoas apresentam cerca de uma recaída a cada 2 anos, mas a frequência varia muito.

Sintomas iniciais da esclerose múltipla

Os sintomas indefinidos de desmielinização cerebral, por vezes, começam muito antes de o problema ser diagnosticado. Os sintomas iniciais mais comuns são os seguintes:

  • Formigamento, dormência, dor, ardor e coceira nos braços, pernas, tronco ou face e, algumas vezes, uma menor sensibilidade ao toque
  • Perda de força ou destreza em uma perna ou mão, que pode se tornar rígida
  • Problemas com a visão

A visão pode se tornar turva ou pouco clara. E, principalmente, as pessoas perdem a habilidade de enxergar quando olham para frente (visão central). A visão periférica (lateral) é menos afetada. Pessoas com esclerose múltipla também podem apresentar os seguintes problemas de visão:

  • Oftalmoplegia Internuclear: As fibras nervosas que coordenam os olhos quando se movem horizontalmente (olhar de um lado ao outro) são lesionadas. Um olho não pode girar para dentro, causando visão dupla ao olhar para o lado oposto ao olho afetado. O olho não afetado pode se mover de modo involuntário, se mover rápida e repetidamente em uma direção e, depois, voltar lentamente (um sintoma chamado nistagmo).
  • Neurite óptica (inflamação do nervo óptico): A visão pode ser parcialmente perdida em um olho, e ocorre dor quando o olho é movido.

Quando a parte posterior da medula espinhal no pescoço é afetada, ao inclinar o pescoço para a frente é produzida uma sensação de descarga elétrica ou uma sensação de formigamento que desce pelas costas, desce a ambas as pernas, a um braço ou a um lado do corpo (uma resposta denominada sinal de Lhermitte). Geralmente, a sensação dura apenas um momento e desaparece ao endireitar o pescoço. Frequentemente, sente-se sempre que o pescoço permanece inclinado para frente.

Sintomas tardios da esclerose múltipla

À medida que a esclerose múltipla avança, os movimentos podem tornar-se trêmulos, irregulares e ineficazes. As pessoas podem ficar parcial ou completamente paralisadas. Músculos fracos podem contrair involuntariamente (chamado espasticidade), causando, às vezes, cãibras doloridas. A fraqueza e espasticidade do músculo podem interferir no andar, chegando até a impossibilitá-lo, mesmo com um andador ou outro aparelho. As pessoas que não podem caminhar podem desenvolver osteoporose.

A linguagem pode tornar-se lenta, com sussurros e titubeações.

As pessoas podem não conseguir controlar as respostas emocionais e podem rir ou chorar em situações impróprias. A depressão é comum e a memória pode ser levemente afetada.

Os nervos que controlam os mecanismos da micção ou da defecação podem ser afetados, causando urgência em urinar (impetuosa e frequente), retenção de urina, constipação e, por vezes, incontinência urinária e fecal.

Raramente, em níveis avançados da doença, pode desenvolver-se demência.

Se as recaídas se tornarem mais frequentes, as pessoas ficarão cada vez mais incapacitadas, por vezes, de forma permanente.

 


TRATAMENTO

Nenhum tratamento para a esclerose múltipla é universalmente eficaz.

Corticosteroides

Em caso de uma crise aguda, corticosteroides são mais comumente utilizados. Provavelmente, funcionam ao suprimir o sistema imunológico. São administrados por um curto período de tempo para aliviar sintomas imediatos (como perda de visão, força ou coordenação), caso os mesmos interfiram no funcionamento do organismo. Por exemplo, pode-se administrar prednisona por via oral ou metilprednisolona por via endovenosa. Embora os corticosteroides possam diminuir as recaídas e reduzir a progressão da esclerose múltipla, eles não param sua progressão.

Raramente se utilizam os corticosteroides durante um período prolongado, já que podem causar muitos efeitos colaterais, como um aumento da propensão para as infecções, diabetes, aumento de peso, cansaço, osteoporose e úlceras. Os corticosteroides são iniciados e suspensos conforme a necessidade.

 

Medicamentos para ajudar a controlar o sistema imunológico

Frequentemente são também usados medicamentos que ajudam a impedir o sistema imunológico de atacar as bainhas de mielina. Esses medicamentos ajudam a reduzir o número de futuras recaídas. Eles incluem o seguinte:

  • As injeções de interferon beta reduzem a frequência de recaídas e podem ser úteis para retardar a invalidez.
  • As injeções de acetato de glatirâmero podem proporcionar benefícios semelhantes às pessoas com esclerose múltipla leve inicial.
  • A mitoxantrona, um medicamento para quimioterapia, pode reduzir a frequência de recaídas e diminuir a progressão da doença. É administrada por até 2 anos, apenas, ou somente quando outros medicamentos não funcionam, pois podem levar a lesão cardíaca.
  • O natalizumabe é um anticorpo administrado intravenosamente como infusão, uma vez por mês. É mais eficaz que outros medicamentos ao reduzir a frequência de recaídas e evitar futuras lesões no cérebro. Entretanto, o natalizumabe pode aumentar o risco de uma infecção rara e fatal do cérebro e da medula espinhal (leucoencefalopatia multifocal progressiva). Natalizumabe é usado somente por médicos especialistas e pessoas que utilizam devem ser observadas periodicamente quanto a sinais de leucoencefalopatia multifocal progressiva. Exames de sangue para o vírus JC, que causa a leucoencefalopatia multifocal progressiva, são realizados periodicamente.
  • Alentuzumabe (utilizado para tratar leucemia) é eficaz no tratamento da esclerose múltipla que ocorre em padrões de recaída (padrão de recaída-remissão e padrão recidivante progressivo). Este é administrado por via intravenosa. No entanto, aumenta o risco de doenças autoimunes graves e determinados tipos de cânceres. Consequentemente, o alentuzumabe é geralmente utilizado apenas quando o tratamento com outros dois ou mais medicamentos não tem sido eficaz.
  • A imunoglobulina, administrada intravenosamente uma vez ao mês, às vezes, ajuda quando outros medicamentos não funcionaram.
  • Fingolimode, teriflunomida e fumarato de dimetila, que são medicamentos relativamente novos, podem ser utilizados para tratar esclerose múltipla que ocorre em padrões recorrentes. Esses medicamentos podem ser administrados por via oral.
  • O daclizumabe é um anticorpo monoclonal utilizado para tratar esclerose múltipla que ocorre em padrões recorrentes. É dado como uma injeção subcutânea uma vez ao mês. Pode causar lesões hepáticas.

Troca de plasma

A troca de plasma é recomendada por alguns especialistas para as recaídas graves não controladas por corticosteroides. Entretanto, os benefícios da troca de plasma ainda não foram estabelecidos. Para esse tratamento, é retirado sangue, os anticorpos anormais são removidos e o sangue é retornado à pessoa

 

Outros medicamentos

Outros medicamentos podem ser usados para aliviar ou controlar sintomas específicos:

  • Espasmos musculares: Relaxantes musculares baclofeno ou tizanidina
  • Incontinência urinária: Oxibutinina ou tansulosina
  • Dores por anomalias nos nervos: Anticonvulsivantes (como gabapentina, pregabalina ou carbamazepina), algumas vezes antidepressivos tricíclicos (como amitriptilina) ou opioides
  • Tremores: Propranololde bloqueador beta
  • Cansaço: Amantadina (usado para tratar a doença de Parkinson) ou, menos frequente, medicamentos usados para tratar a sonolência excessiva (como modafinila, armodafinila ou anfetamina)
  • Depressão: Antidepressivos, como sertralina ou amitriptilina, orientação, ou ambos
  • Constipação: Amolecedores do bolo fecal ou laxantes tomados regularmente

As pessoas com retenção urinária podem aprender a cateterizar-se sozinhas para esva­ziar a bexiga.

Outras medidas

As pessoas com esclerose múltipla conseguem, frequentemente, manter um estilo de vida ativa, ainda que costumem se cansar com facilidade e possam não ser capazes de cumprir muitas obrigações. Ajuda para encorajamento e reafir­mação.

Os exercícios praticados com regularidade, como a bicicleta estática, os passeios, a natação ou os alongamentos, reduzem a espasticidade e contribuem para manter a saúde cardiovascular, muscular e psicológica.

A fisioterapia pode ajudar a manter o equilíbrio, a capacidade de caminhar e o nível de mobilidade, assim como a reduzir a espasticidade e a debilidade. As pessoas devem caminhar sozinhas o máximo de tempo possível. Assim, melhoram sua qualidade de vida e ajudam a evitar a depressão.

Evitar altas temperaturas – por exemplo, não tomar banho quente – pode ajudar, pois o calor pode piorar os sintomas. As pessoas que fumam devem parar.

 



Com informações de:

– Msd Manuaals, Versão Saúde para a Família [Esclerose Múltipla EM]. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/dist%C3%BArbios-cerebrais,-da-medula-espinal-e-dos-nervos/esclerose-m%C3%BAltipla-em-e-doen%C3%A7as-relacionadas/esclerose-m%C3%BAltipla-em

 

 

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