DOENÇA CONSIDERADA RARA, PORÉM COMUM NO SUL E SULDESTE DO BRASIL, PODE LEVAR AO SURGIMENTO DO CÂNCER

A Síndrome de Li-Fraumeni é uma série de tipos de câncer causados pela mutação no TP53, considerado um “guardião do genoma”.

Quando as células se dividem e ocorre um erro, o organismo tem que corrigir esse erro para que a célula não fique alterada ou provocar a morte desta célula. O câncer ocorre quando o organismo não consegue fazer nenhuma das duas coisas, e as células danificadas se proliferam desordenadamente.

O TP53 executa várias funções no ciclo celular e tenta impedir justamente que as células que têm erros se proliferem, dando origem a tumores. Uma mutação nele compromete essa característica. E basta que um dos pais tenha a mudança para que ela seja passada adiante.

Uma pessoa com Li-Fraumeni basicamente tem uma chance bem superior de desenvolver câncer em determinadas partes do corpo, mais do que a população em geral.

Um portador ou portadora da mutação genética pode ter somente um tumor, diversos tumores independentes, como a primeira paciente de Maria Isabel Achatz, ou mesmo nunca desenvolver a doença. Mas, em geral, é comum que tenham um histórico de diversos familiares que morreram de câncer.

Os tipos de câncer mais característicos da síndrome são o câncer de mama antes dos 35 anos, os chamados sarcomas ósseos ou de partes moles (que podem aparecer em diversos tecidos do corpo, como os músculos) antes dos 45 anos, leucemias, tumores nas glândulas adrenais (que ficam acima dos rins) e no sistema nervoso central.

“Quando há um familiar com um desses tumores e outro familiar com outro, já consideramos que pode haver Li-Fraumeni naquela família”, dizem os especialistas…”


MAS PORQUE O BRASIL PODE SER ÚNICO NESSE CASO?

Maria Isabel Achatz ainda estava na faculdade de Medicina, em São Paulo, no final dos anos 1990, quando encontrou a paciente que mudaria sua carreira e sua vida para sempre. Era uma mulher que havia tido câncer seis vezes – em todas elas, tumores primários, ou seja, independentes um do outro.

“Falei com meus orientadores que achava que era um caso de Síndrome de Li-Fraumeni, e eles me disseram: ‘Isabel, só tem 200 casos dessa doença no mundo. Você acha realmente que viu um deles aqui?’. E eu respondi: ‘Acho, sim’.”

O mistério da paciente não foi resolvido, porque a estudante deixou de atendê-la. Mas, por causa da suspeita, ela descobriu, anos depois, uma mutação genética que tornou a doença, considerada rara, mais comum no Sul e no Sudeste do Brasil do que em qualquer lugar do mundo.

 No meu primeiro ano trabalhando no Hospital do Câncer em São Paulo eu vi 35 pacientes que diagnostiquei com a síndrome. As pessoas diziam que eu estava louca, mas percebi que havia algo de diferente ali.”

No início dos anos 2000, a pesquisa de Maria Isabel Achatz chamou a atenção de um pesquisador francês, que a encorajou a descobrir o porquê da “situação única” que ela havia observado em seus pacientes no Brasil. Além de sua pesquisa em São Paulo, cientistas no Paraná e no Rio Grande do Sul já faziam questionamentos semelhantes sobre a frequência com que se deparavam com a síndrome.

Ela começou pela análise do gene TP53 nas pessoas que suspeitava que sofressem de Li-Fraumeni, para encontrar a mutação que causava a doença – mutações diferentes no mesmo gene podem levar à síndrome.

“Um gene é composto de cinco partes e, na época, a maioria das pessoas analisava apenas a parte central, que faz a ligação com o DNA. Mas nos meus pacientes eu não encontrava nada. Fiquei arrasada, achei que estava diagnosticando errado”, relembra.

Mas a geneticista descobriu que a mutação de seus pacientes estava em outra parte do gene TP53, o que tornava o Li-Fraumeni brasileiro único no mundo.


DIFERENÇAS BRASILEIRAS

Por ser em um local diferente do gene TP53, a mutação brasileira faz com que a síndrome de Li-Fraumeni tenha características distintas aqui quando comparada com outros lugares do mundo.

Uma delas é a probabilidade de desenvolver tumores. Em geral, portadores da síndrome, homens e mulheres, têm cerca de 90% a 100% mais chances de terem câncer do que a população em geral. No Brasil, mulheres têm cerca de 78% de probabilidade e, em homens, ela é menor do que 50%.

No resto do mundo, mutações genéticas no TP53 também costumam causar câncer mais cedo – em 50% dos casos, antes dos 30 anos. No caso brasileiro, esse índice é de 30%.

“Por isso, os brasileiros com a síndrome vivem mais tempo sem tumores e, por isso, têm mais probabilidade de ter filhos e de passar o gene adiante”, diz a geneticista Maria Isabel Achatz.

Isso pode ajudar a explicar, diz ela, por que a prevalência da doença do Sul e no Sudeste do Brasil é tão maior do que no resto do mundo. Estudos nas populações de Porto Alegre (RS) e de Curitiba (PR) demonstraram que uma em cada 300 pessoas tem a síndrome – estima-se que, atualmente cerca de 300 mil indivíduos sejam afetados no Brasil.

Em outros lugares, há dados diferentes sobre prevalência da mutação, que vão de uma a cada 5 mil pessoas até uma a cada 20 mil, o que faz com que a síndrome seja considerada rara.

 



Créditos da Matéria: BBC Brasil

 

 

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